Face with Tears of Joy: o gozo como técnica de anulação social e alienação coletiva



João Pedro Fonseca
17 Maio  2026

Faz 10 anos que foram implementados os emojis nas redes sociais. O riso, antes individual, tornou-se uma coreografia coletiva, silenciosa e eficaz, que agora se move dentro das instituições e governa.

 “Troll das montanhas” Theodor Kittelsen

“O troll vivia nas montanhas, surgindo apenas para enganar, assustar ou capturar aqueles que atravessavam o seu caminho.” excerto de um dos vários contos folclóricos noruegueses recolhidos por Peter Christen Asbjørnsen e Jørgen Moe entre 1841 e 1852.

O termo “troll” antecede a internet. Não nasceu de um autor individual, mas do imaginário colectivo escandinavo. Nos contos da Noruega e da Islândia, designava seres que existiam fora da ordem social: figuras de perturbação cuja função não era apenas assustar, mas interromper o fluxo normal das relações humanas. O troll não argumentava nem construía; surgia para desestabilizar. Era uma figura de ruído.

Séculos depois, esse arquétipo migrou para o mundo virtual e reconfigurou-se. Instalou-se nos fóruns, nas caixas de comentários e nas redes sociais, mantendo a sua essência provocadora e caótica. A diferença é que, em vez de um corpo físico, ocupa um espaço digital que amplifica e distribui as suas ações.

Em 2009, o Facebook inaugurou o “like”1, a forma mínima de participação social substituindo a palavra por um “click”; mas foi em 2016, com a expansão para um espectro emocional pré-definido —as reações 👍❤️😆😮😢😠em emojis2 — que a linguagem cedeu lugar à codificação afectiva. A comunicação deixa de depender da construção discursiva e passa a operar através de sinais rápidos, quantificáveis e visíveis. É nesse contexto que surge o emoji U+1F602 😂, mais conhecido como Face with Tears of Joy - a industrialização do gesto do troll. Como apontou há 10 anos a jornalista Abi Wilkinson2 no The Guardian, essa transformação na comunicação criou maneiras insidiosas de celebrar o sofrimento, utilizando o Face with Tears of Joy como o emoji para ridicularizar a dor alheia.

À medida que os espaços digitais decaíram na qualidade — processo que Cory Doctorow descreveu como “enshittification” — a intensidade emocional e a velocidade de circulação tornam-se propriedades estruturais do ambiente. O Face with Tears of Joy começou a operar no ecossistema como um mecanismo de baixo custo e alta polémica. Propagando uma forma codificada de relação social, que organiza atenção, disciplina interações e transforma o riso num mecanismo de humilhação coletiva. A emoção deixou de ser individual e tornou-se uma arquitetura performativa instrumentalizada influenciada pela machosfera, conspiradores, negacionistas, num aglomerado onde tanto um gestor e um trabalhador precário, um nacionalista e um imigrante, um moderado e um extremista podem habitar o mesmo fluxo de reacção sem consciência dessa co-presença, participando no mesmo gesto, alinhados no riso dirigido a um terceiro.

O riso digital, supostamente inofensivo, converteu-se num mecanismo de alinhamento e exclusão, moldando a forma como reagimos a temas sensíveis. Palavras-chave, como imigração, climal, transgénero, racismo, feminismo, extrema-direita, esquerda ou até mesmo em contextos muito específicos, liberdade e democracia, tornam-se gatilhos que convocam tribos de riso coletivo, criando uma falsa sensação de pertença enquanto alienam o outro. Com isso, o troll, que antes era uma figura isolada, evoluiu para uma força coletiva invisível, exercendo um controlo subtil e eficaz por meio da descredibilização.




Há pouco tempo deparei-me com a obra “Cuentos Patrióticos” (1997), de Francis Alÿs. No vídeo, uma ovelha é conduzida em círculos ao redor de um mastro; gradualmente, outras se juntam ao movimento. Mesmo sem liderança, o ciclo persiste. Assim como essas ovelhas, as reações coletivas online auto-sustentam-se através das chamadas cascatas de informação. Em ambientes de elevada incerteza e excesso de estímulos, indivíduos inferem a validade de uma posição observando o comportamento alheio. Quando um número suficiente reage com escárnio ou ironia, a ação passa a funcionar como heurística: “se tantos riem, esta deve ser a leitura correta”. A partir daí, o comportamento deixa de ser uma convicção individual e transforma-se em imitação, gerando uma cascata auto-sustentada, resistente à correção e amplificada pela visibilidade algorítmica. Este resultado aproxima-se menos da clássica ideia de massa e mais de uma forma de enxame digital: uma agregação sem centro, sem coerência estável, onde os indivíduos se dissolvem temporariamente numa unidade operacional que existe apenas enquanto movimento. Esta unidade não possui identidade própria; é altamente volátil, emergindo e desaparecendo com a mesma facilidade. Precisamente por isso, não produz continuidade política nem densidade organizativa, na medida em que não constitui uma estrutura estável, operando apenas em resposta a padrões emergentes de interação.

A estrutura das plataformas não é neutra nem meramente mediadora. São sistemas que projetam o protagonismo no utilizador, idealizado como um indivíduo singular, autónomo e desligado de laços comunitários, enquanto organizam infraestruturalmente a sua atenção e visibilidade. A interação é assim moldada por regimes técnicos sedutivamente gamificados, que distribuem a percepção de forma desigual e orientam os comportamentos através de incentivos contínuos. A expressão “brutalidade digital”, de Geert Lovink, não emerge como exceção, mas como consequência da própria arquitetura do sistema, que torna a circulação dependente de intensidades emocionais e de padrões de reação. É neste contexto que certos atores — influencers, gurus, políticos — passaram a compreender e a explorar estas condições como meio de influência, apropriando-se da lógica do sistema como instrumento. Quando damos por isso, o troll já não está marginalizado: habita instituições e, de certa forma, governa.

Dos contos folclóricos noruegueses às redes sociais contemporâneas, o troll evoluiu de personagem isolada para mecanismo colectivo. O riso digital banal transcendeu o perfil individual, tornando-se no mais potente instrumento de descredibilização, capaz de redesenhar relações e reconfigurar percepções da realidade. Hoje, a sua força não reside apenas nas margens: a sua lógica atravessa o espaço digital e penetra o tecido institucional, refletindo uma nova ecologia de poder e alienação colectiva.
1 How the Facebook ‘like’ button ruined the internet – and why it’s time to ditch the algorithm
2 The Complete and Original Norwegian Folktales of Asbjørnsen and Moe
3 Reactions Now Available Globally
4 The ‘tears of joy’ emoji is the worst of all – it’s used to gloat about human suffering
5 A free, open visual identity for enshittification
6 Cuentos patrióticos 1997 - Francis Alÿs