Face with Tears of Joy:
o gozo como técnica de anulação social e alienação coletiva

    de João Pedro Fonseca

“Troll das montanhas” desenho de Theodor Kittelsen


“O troll vivia nas montanhas, surgindo apenas para enganar, assustar ou capturar aqueles que atravessavam o seu caminho.” excerto de um dos vários contos folclóricos noruegueses recolhidos por Peter Christen Asbjørnsen e Jørgen Moe entre 1841 e 1852.

O termo “troll” antecede a internet. Não nasceu de um autor individual, mas do imaginário colectivo escandinavo. Nos contos da Noruega e da Islândia, designava seres que existiam fora da ordem social: figuras de perturbação cuja função não era apenas assustar, mas interromper o fluxo normal das relações humanas. O troll não argumentava nem construía; surgia para desestabilizar.

Séculos depois, esse arquétipo migrou para o mundo virtual. Instalou-se em fóruns, caixas de comentários e redes sociais, mantendo a sua essência provocadora e caótica. A diferença é que, em vez de um corpo físico, ocupa um espaço digital que amplifica e distribui as suas ações. As redes sociais transformaram a interação, permitindo que uma única provocação alcançasse as massas instantaneamente.

Em 2009, o Facebook inaugurou o “like”, a forma mínima de participação social substituindo a palavra por um “click”; mas foi em 2016, com a expansão para um espectro emocional pré-definido - as reações em emojis -, que a linguagem cedeu lugar à codificação afectiva. A comunicação deixa de depender da construção discursiva e passa a operar através de sinais rápidos, quantificáveis e visíveis. É nesse contexto que surge o emoji U+1F602, mais conhecido como Face with Tears of Joy - a industrialização do gesto do troll. Como apontou há 10 anos a jornalista Abi Wilkinson no The Guardian, essa transformação na comunicação criou maneiras insidiosas de celebrar o sofrimento, utilizando o Face with Tears of Joy como o emoji para ridicularizar a dor alheia.

À medida que os espaços digitais decaíram na qualidade — processo que Cory Doctorow descreveu como “enshittification” — a intensidade emocional e a velocidade de circulação tornam-se propriedades estruturais do ambiente. O Face with Tears of Joy começou a operar no ecossistema como um mecanismo de baixo custo e alta polémica. Propagando uma forma codificada de relação social, que organiza atenção, disciplina interações e transforma o riso num mecanismo de humilhação coletiva. A emoção deixou de ser individual e tornou-se uma arquitetura performativa instrumentalizada influenciada pela machosfera, conspiradores, negacionistas, num aglomerado onde tanto um gestor e um trabalhador precário, um nacionalista e um imigrante, um moderado e um extremista podem habitar o mesmo fluxo de reacção sem consciência dessa co-presença, participando no mesmo gesto, alinhados no riso dirigido a um terceiro.

O riso digital, supostamente inofensivo, converteu-se num mecanismo de alinhamento e exclusão, moldando a forma como reagimos a temas sensíveis. Palavras-chave, como imigração, transgénero, racismo, feminismo, extrema-direita, esquerda ou até mesmo em contextos muito específicos, liberdade e democracia, tornam-se gatilhos que convocam tribos de riso coletivo, criando uma falsa sensação de pertença enquanto alienam o outro. Com isso, o troll, que antes era uma figura isolada, evoluiu para uma força coletiva invisível, exercendo um controlo subtil e eficaz por meio da descredibilização.



Há pouco tempo deparei-me com a obra “Cuentos Patrióticos” (1997), de Francis Alÿs. No vídeo, uma ovelha é conduzida em círculos ao redor de um mastro; gradualmente, outras se juntam ao movimento. Mesmo sem liderança, o ciclo persiste. Assim como essas ovelhas, as reações coletivas online auto-sustentam-se através das chamadas cascatas de informação. Em ambientes de elevada incerteza e excesso de estímulos, indivíduos inferem a validade de uma posição observando o comportamento alheio. Quando um número suficiente reage com escárnio ou ironia, a ação passa a funcionar como heurística: “se tantos riem, esta deve ser a leitura correta”. A partir daí, o comportamento deixa de ser convicção individual e transforma-se em imitação, gerando uma cascata auto-sustentada, resistente à correção e amplificada pela visibilidade algorítmica.

A tentação, perante este cenário, é influenciar a massa. O que hoje vemos não é um sistema controlado, mas explorado por atores que compreenderam esta lógica e a usam sistematicamente. Quando damos por isso, o troll já não está marginalizado; ele agora habita instituições e, de certa forma, governa.

Dos contos folclóricos noruegueses às redes sociais contemporâneas, o troll evoluiu de personagem isolada para mecanismo colectivo. O riso digital banal transcendeu o perfil individual, tornando-se o mais potente instrumento de descredibilização, capaz de redesenhar relações e reconfigurar percepções da realidade. Hoje, a sua força não reside apenas nas margens: a sua lógica atravessa o espaço digital e penetra o tecido institucional, refletindo uma nova ecologia de poder e alienação colectiva.