Face with Tears of Joy: o gozo como técnica de anulação social e alienação coletiva
17 Maio 2026
O termo “troll” antecede a internet. Não nasceu de um autor individual, mas do imaginário colectivo escandinavo. Nos contos da Noruega e da Islândia, designava seres que existiam fora da ordem social: figuras de perturbação cuja função não era apenas assustar, mas interromper o fluxo normal das relações humanas. O troll não argumentava nem construía; surgia para desestabilizar. Era uma figura de ruído.
Em 2009, o Facebook inaugurou o “like”1, a forma mínima de participação social substituindo a palavra por um “click”; mas foi em 2016, com a expansão para um espectro emocional pré-definido —as reações 👍❤️😆😮😢😠em emojis2 — que a linguagem cedeu lugar à codificação afectiva. A comunicação deixa de depender da construção discursiva e passa a operar através de sinais rápidos, quantificáveis e visíveis. É nesse contexto que surge o emoji U+1F602 😂, mais conhecido como Face with Tears of Joy - a industrialização do gesto do troll. Como apontou há 10 anos a jornalista Abi Wilkinson2 no The Guardian, essa transformação na comunicação criou maneiras insidiosas de celebrar o sofrimento, utilizando o Face with Tears of Joy como o emoji para ridicularizar a dor alheia.
À medida que os espaços digitais decaíram na qualidade — processo que Cory Doctorow descreveu como “enshittification” — a intensidade emocional e a velocidade de circulação tornam-se propriedades estruturais do ambiente. O Face with Tears of Joy começou a operar no ecossistema como um mecanismo de baixo custo e alta polémica. Propagando uma forma codificada de relação social, que organiza atenção, disciplina interações e transforma o riso num mecanismo de humilhação coletiva. A emoção deixou de ser individual e tornou-se uma arquitetura performativa instrumentalizada influenciada pela machosfera, conspiradores, negacionistas, num aglomerado onde tanto um gestor e um trabalhador precário, um nacionalista e um imigrante, um moderado e um extremista podem habitar o mesmo fluxo de reacção sem consciência dessa co-presença, participando no mesmo gesto, alinhados no riso dirigido a um terceiro.
O riso digital, supostamente inofensivo, converteu-se num mecanismo de alinhamento e exclusão, moldando a forma como reagimos a temas sensíveis. Palavras-chave, como imigração, climal, transgénero, racismo, feminismo, extrema-direita, esquerda ou até mesmo em contextos muito específicos, liberdade e democracia, tornam-se gatilhos que convocam tribos de riso coletivo, criando uma falsa sensação de pertença enquanto alienam o outro. Com isso, o troll, que antes era uma figura isolada, evoluiu para uma força coletiva invisível, exercendo um controlo subtil e eficaz por meio da descredibilização.
A estrutura das plataformas não é neutra nem meramente mediadora. São sistemas que projetam o protagonismo no utilizador, idealizado como um indivíduo singular, autónomo e desligado de laços comunitários, enquanto organizam infraestruturalmente a sua atenção e visibilidade. A interação é assim moldada por regimes técnicos sedutivamente gamificados, que distribuem a percepção de forma desigual e orientam os comportamentos através de incentivos contínuos. A expressão “brutalidade digital”, de Geert Lovink, não emerge como exceção, mas como consequência da própria arquitetura do sistema, que torna a circulação dependente de intensidades emocionais e de padrões de reação. É neste contexto que certos atores — influencers, gurus, políticos — passaram a compreender e a explorar estas condições como meio de influência, apropriando-se da lógica do sistema como instrumento. Quando damos por isso, o troll já não está marginalizado: habita instituições e, de certa forma, governa.
Dos contos folclóricos noruegueses às redes sociais contemporâneas, o troll evoluiu de personagem isolada para mecanismo colectivo. O riso digital banal transcendeu o perfil individual, tornando-se no mais potente instrumento de descredibilização, capaz de redesenhar relações e reconfigurar percepções da realidade. Hoje, a sua força não reside apenas nas margens: a sua lógica atravessa o espaço digital e penetra o tecido institucional, refletindo uma nova ecologia de poder e alienação colectiva.
2 The Complete and Original Norwegian Folktales of Asbjørnsen and Moe
3 Reactions Now Available Globally
4 The ‘tears of joy’ emoji is the worst of all – it’s used to gloat about human suffering
5 A free, open visual identity for enshittification
6 Cuentos patrióticos 1997 - Francis Alÿs